Saiba o que foi debatido no Seminário Arquitetura, Cultura e Cidadania.

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Arquitetura, Cultura e Cidadania. Este foi o tema do seminário promovido pelo Instituto de Arquitetos Brasileiro (IAB), em parceira com o Ministério da Cultura (Minc), que reuniu grandes pensadores do assunto no auditório do Museu da República, em Brasília, nos dias 12 e 13 de maio de 2010.

Esta parceria nasce com boas perspectivas e deste encontro teremos alguns encaminhamentos que serão discutidos no 19º Congresso de Arquitetos, que acontecerá em Recife, entre os dias 1 e 4 de junho”, disse João Suplicy, presidente do IAB Nacional.

Entre os convidados, personalidades como Paulo Mendes da Rocha, vencedor do Pritsker em 2006 – prêmio máximo da arquitetura mundial, a secretária do Patrimônio da União, Alexandra Rescke, o coordenador do Docomomo Brasil, Carlos Eduardo Dias Gomes, Ciro Pirondi, um dos fundadores da Casa Lúcio Costa; e a secretária de Habitação da Prefeitura de São Paulo, Elizabete França.

Com este evento buscamos estreitar ainda mais o diálogo entre arquitetura e cultura e assim concretizarmos uma das funções primordiais dos arquitetos que é, através de sua arte, trazer o bem-estar para a população, cuidar do público, do coletivo. A idéia é colocar arquitetura como temática das funções de cidadãos e delimitar uma nação nova onde possamos de fato exercer a democracia”, afirmou Paulo Henrique Paranhos, presidente do IAB departamento DF.
 
Durante sua exposição, Paulo Mendes da Rocha reforçou que a questão da cidade é fundamental na cultura de qualquer povo e, por isso, há necessidade de se discutir a idéia de uma cidade para todos, sem discriminação.

Temos a consciência que o habitat do homem é nossa cidade. O encanto de Brasília é justamente porque aqui foi feito algo que historicamente se sonhava: tornar este território reconhecido. O povo brasileiro tem a consciência de que construiu Brasília e isto é mais importante que tudo”, ressaltou o arquiteto.

A opinião foi corroborada por Carlos Vieira, chefe de gabinete do secretário executivo do Ministério da Cultura, que destacou a importância da arquitetura na implantação de políticas públicas que permitam a transformação na qualidade de vida da população.

A arquitetura tem que ser vista como uma expressão social e deve participar da vida dos brasileiros que não têm condições de ter uma moradia de qualidade, mas precisam ter o direito de exercer uma cidadania plena. É a arquitetura que permite estas mudanças”, acrescentou Carlos Vieira.
 
Atualmente, existe uma demanda cada vez maior por espaços urbanos que abriguem as manifestações culturais de uma população. E neste aspecto, construir passa a ter um papel fundamental na manutenção das tradições de uma comunidade. Entretanto, a proposta deve ser adaptada ao uso, às técnicas e às condições ambientais, bem como estar adequada aos anseios dos habitantes daquela região, pois, caso contrário, a nova edificação pode não ser incorporada pela sociedade.

Há um grande medo de que edifícios se tornem elefantes brancos, que caiam em desuso, sejam mal geridos e não se prestem a seu fim. Discutir a construção de um edifício cultural não é meramente a discussão de obra, prazos, ou planos de meta, pois um edifício cultural é bem mais complexo que isso, em função da mobilização social”, observou José Baravelli, do Ministério da Cultura.
 
A arquiteta Fernanda Barbara, da Escola da Cidade de São Paulo, lembrou que a arquitetura brasileira, hoje em dia, está transpondo a fenda que surgiu em função de um momento político – a ditadura militar – onde houve um enfraquecimento das potencialidades tanto da edificação, quanto a divulgação e a criação da arquitetura brasileira. Depois do auge que a matéria obteve nos anos 50, que culminou na concretização de Brasília, os arquitetos ficaram à margem do processo de reflexão e proposições de projetos de crescimento e conformação das cidades que resultou na explosão urbana iniciada no final dos anos 60/70.

Seminário Arquitetura, Cultura e Cidadania lotou o Auditório do Museu Nacional. - Divulgação

Em arquitetura fazer o melhor possível é fazer com projeto e com tempo, principalmente quando se trata de habitações sociais em escala, desenvolvendo projetos no tempo, para que não sejam definidos e estabelecidos de gestão a gestão, mas que se estabeleçam com a continuidade para garantir a dignidade da condição de moradia. Temos que ter tempo para planejar e oferecer projetos de cidades dignas para a população de maneira geral, independente da sua classe social e de suas condições”, completou.
 
Na avaliação de Carlos Eduardo Dias Comas, do Docomomo, esta parceira entre IAB e Minc marca oficiosamente o re-conhecimento por parte de parcela relevante do poder público que a qualidade de arquitetura importa.

Estou dizendo re-conhecimento porque já houve tempo em que nossos governantes entendiam que a promoção pública é vital para o florescimento da arquitetura, sendo importante para o crescimento do país. A arquitetura deve ser entendida como cultura e cultura de qualidade vende. Em Porto Alegre, por exemplo, uma promoção da Secretaria de Planejamento do município está fazendo caminhadas, com guia das UFRS. Todos os sábados têm roteiros e é impressionante o número de pessoas que tem concorrido para estes eventos. Estou pensando também que isto significa apoio em termos de orientar as escolas de urbanismo. Acredito na continuidade de uma ação educativa, ter ações de familiarização com a importância da arquitetura e urbanismo para todos os segmentos da sociedade”, analisou Dias Comas.

Para a superintendente da Secretaria de Habitação da Prefeitura de São Paulo, Elizabete França, a aplicação da boa arquitetura cria não só a melhoria da qualidade do morador diretamente envolvido, mas também da cidade, e acaba se tornando uma referência.

Para mim o papel da arquitetura é construir espaços públicos qualificados, o que permite demolir barreiras físicas e simbólicas que existem e, assim, acabar com uma cultura de segregação horrível. Ela ajuda a reforçar a função da cidade como o local onde se exerce a democracia. É importante entender que a arquitetura é uma disciplina do conhecimento humano, não é um produto que se vende, ela é construtora da sociedade brasileira”, finalizou Elizabete.